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"Blog" de Umaro Djau: 06/01/2004 - 07/01/2004

"Blog" de Umaro Djau

THIS BLOG IS INTENDED TO HOST UMARO DJAU's ARTICLES AND REFLECTIONS ON A VARIETY OF ISSUES. MOST OF THE POSTED ARTICLES HAVE BEEN PUBLISHED IN NEWSPAPERS AND/OR MAGAZINES *** ESTE "BLOG" AGRUPA ARTIGOS DE UMARO DJAU E CONSTITUEM REFLEXÕES SOBRE VÁRIOS TEMAS. MUITOS DESTES ARTIGOS JÁ FORAM PUBLICADOS EM JORNAIS E REVISTAS.

Segunda-feira, Junho 07, 2004


UMARO DJAU

“NHA BOCA CASTALA”: um hábito, um enigma

Os guineenses são excepcionalmente conhecidos pelo seu grau do conformismo. Este conformismo acaba por caracterizar os nossos hábitos e formas de vida quer nos aspectos privados, quer públicos. São poucos os guineenses que não se tenham acostumado aos dizeres como “nha boca castala” (não tenho nada a ver com isso), “djitu katen” (não há outra maneira), “deus ten” (confio em deus). Bem, não é que eu não acredite em Deus! Mas o guineense está repleto de muitas manifestações de carácter indecisivos e neutrais. Por um lado, estamos habituados a coabitar-se com a insegurança, indefesa e a neutralidade, e por outro, estamos constantemente limitados pela indiferença face aos assuntos que até directamente nos dizem respeito. Numa só frase, os guineenses ressentem-se da falta de uma sólida expressão.

Uma tal constatação, se bem que baseada numa leitura individual, tem raízes nos diferentes aspectos que moldaram os habitantes daquele país africano ao longo da sua existência histórica. Primeiro como uma colónia, depois como uma nação independente e soberana. No que diz respeito à primeira etapa, os chamados indígenas da Guiné, supostamente pouco tinham a oferecer aos colonos, isto em termos sócio-culturais, intelectuais e políticos. Perante a uma tal farsa, muito cedo os nativos guineenses se distanciaram da máquina administrativa colonial. Sem direito às opiniões, à participacao e nem acesso às instancias superiores, os ex-cidadãos de ultramar viram nascer uma doutrina, um enigma: a abstenção.

Durante a segunda etapa, também não menos controversa, a jovem nação, confrontada com as lutas de ideologias político-sociais, pouco conseguiu fazer para mudar a mentalidade do povo guineense. Com as azáfamas da independência, os novos governantes, preocupados com a estabilidade das suas conquistas, limitaram aos cidadãos alguns dos seus básicos direitos, nomeadamente a liberdade de expressão. Com uma máquina militar e policial à altura das suas intenções políticas, os guineenses ficaram confinados, mais uma vez, ao princípio de “aceitação incondicional” à vária forma de censura, sobretudo no tocante à liberdade de pensamento. Como resultado, cimentou-se uma terrível realidade: constante abstenção, renúncia e privação.

Hoje, três décadas após a independência, não obstante uma melhoria significativa no exercício de várias liberdades que se assistem aos cidadãos, a maioria dos guineenses continua mergulhada nas sombras do seu passado histórico sob às fantasmas de sempre--o medo de repressão. É de tudo isso se ressente o carácter de um guineense constantemente moldado pelos restringimentos dos dias que ainda sobrevivem na memória colectiva dos cidadão--a presença de uma figura obscura que nos prega e censura por dentro.

Assim sendo, são poucos os guineenses que assumem posições públicas, no que se refere sobretudo à política. Se bem que não tenha havido um grande índice de abstenções nas eleições que até agora aconteceram na Guiné-Bissau, nem por isso se pode dizer que os guineenses ganharam a coragem de dizer o que sentem. Estou a crer que, mesmo hoje em dia, são poucos dos chamados intelectuais guineenses que ousam vir ao público para denunciar uma ou outra situação. E quando o fazem, preferem manter-se no anonimato, acostar-se ao outros ou simplesmente assumir uma posição de neutralidade. Na gíria guineense dizem defensivamente “nha boca castala”.

Foi provavelmente a pensar nesse tipo de comportamentos que o filósofo grego Platão tenha afirmado que “quando as pessoas não se involvem na política, elas serão governadas pelos seus inferiores”. Isso foi verdade no século terceiro antes do Cristo e continua a ser uma realidade nos dias de hoje. À esta célebre constatação, gostaria de adicionar o seguinte: quando as pessoas são excessiva e constantemente neutras, os seus destinos podem ser entregues aos destinos alheios. Na verdade, se o preço da participação na vida pública pode ser muito caro, o de abstenção pode ser mortal e eterno. Caso para dizer, “No guts, no nuts”. A verdade é que não haverá desenvolvimento sem uma participação de todos, sejam eles à favor ou contra nossas ideias.

***PUBLICADO INICIALMENTE EM AGOSTO DE 1998***