ELES SÃO GUINEENSES, TAMBÉM
As férias tinham terminado. Chegara a altura de voltar à capital. Bissau estava à espera, paciente e indiferentemente. Sempre que regressava de férias, haviam uns acompanhantes incómodos, mas inescapáveis: os conselhos do meu pai. Eles eram como uma tinta indelével que penetrava no meu cérebro para o resto do ano escolar, para não dizer o resto da minha vida. Eles, os conselhos, tinham sempre a mesma tónica, o mesmo objectivo. "Por favor, não me desaponte," era o aviso e "siga os exemplos dos que já alcançaram sucessos," era o objectivo.
Ainda não estou na altura de afirmar que já consegui os dois, mas não me esqueci dos conselhos do meu pai. Uma das razões porque não os consigo esquecer é por simples facto de o meu pai ter sempre destacado uma pessoa que os habitantes de "Patchâna" viam como exemplar. O meu pai sempre me dizia: "tens que pegar teso na escola...estás a ver onde está o Sôro...ele está em Cuba a estudar." Tinha muita pouca ideia onde estava Cuba e nem tão pouco sobre o indivíduo tanto idealizado pelo meu pai.
Bem, Cuba e Sôro ficaram eternamente gravados na minha memória. Cuba? As dissipações ficaram esclarecidas no liceu. Cuba e União Soviética eram os tópicos comuns reforçados pela presença dos professores destas nacionalidades. Quando fiquei a saber mais sobre a Cuba e doutros países de "Leste", dei algum crédito ao meu pai. Valia a pena estudar muito e esperar por uma bolsa de estudos que me fizesse chegar a um dos desses países. O desejo foi ainda maior quando a vida me cruzou com um outro oficial militar que acabara de voltar de Cuba. Dizia ele, a comida não faltava; os hospitais eram impecáveis; a fraternidade cubana era invejável e as escolas eram óptimas.
Estavámos no auge do Comunismo e da revolução social cubana. Frases como "Cuba Livre" e a lucidez do seu líder histórico Fidel Castro iam de mãos dadas nas salas de aula tal como durante os recreios. Cuba...Fidel...Revolução e daí para fora!
As voltas do destino eliminaram a Cuba dos meus percursos académicos. Mas, aqui e ali cruzava-me com pessoas provenientes de Cuba ou cujos familiares estariam a estudar em Cuba. Não seria um exagero afirmar que são poucos os guineenses que não têm ou tiveram familiares naquela ilha. Afinal, tal como o meu próprio pai, muitos guineenses compartilhavam as lendas do socialismo benevolente de Cuba. Mas, nostalgia de lado, a Cuba de hoje não é a Cuba de ontem. O Comunismo está quase no seu fim; Fidel já não dispõe de uma voz firme e o sistema social e educativo já não recebe as injecções ideológicas de outrora.
Em suma, o país tem dificuldades em preservar as heranças e os compromissos do passado. Aliás, Cuba já vem apertando o cinto por mais de duas décadas. Caso para dizer, o açúcar, o leite, os ovos, o arroz, os livros, os transportes, e a cana-de-açúcar já não são grátis. Cuba continua "livre," mas viver lá tem um preço. Os hóspedes continuam a ser bem-vindos, mas as despesas têm que ser à conta própria. Não creio que o meu pai saiba dessas mudanças. Afinal de contas, o filho que ele sempre aconselhou não está em Cuba e, por isso mesmo, livre de lamentações. Mas, os pais doutrem devem estar apavorados com a situação de penúria permanente em que os filhos deles se encontram. Esta situação de extrema degradação já fez correr muita tinta, mas nem uma única cabeça, como é de esperar.
Retórica de lado, diria que chegou a altura de os governantes guineenses prestarem uma atenção especial aos estudantes nacionais espalhados por todo o mundo, particularmente nos países com graves dificuldades económicas. É bom saber de que em Cuba a educação é universal e gratuita. Mas é particularmente importante reconhecer de que Cuba não dispõe de condições para satisfazer as necessidades de estudantes provenientes de 113 nações, 70 porcento dos quais africanos.
Há já algum tempo que eu tenho estado a acompanhar a situação penosa e lamentável em que centenas de estudantes guineenses se encontram em Cuba. Não consigo imaginar tiver que se viver e estudar num país com graves dificuldades económicas sem se puder contar com os apoios dos países de origem. Como se for estudante só por si não bastasse, já há algum tempo que os nossos conterrâneos têm vindo a sofrer a sensação de total abandono por partes dos sucessivos governos.
Para agravar ainda mais a situação, muito recentemente o Governo cubano alarmou a população da ilha ao anunciar uma série de medidas de contingência económica o que tem colocado o país num alto nível de precariedade social. Infelizmente, sempre que hajam filas nos estabelecimentos de venda de alimentos e o reforço da presença policial nas lojas de troca de divisas cresce a agonia dos estudantes. E mesmo sem estas conturbações, os estudantes guineenses não estão em condições de competir com os residentes locais muitos dos quais habituados a receber divisas através dos exilados ou emigrantes cubanos nos EUA quem enviam anualmente para a ilha mais de 900 milhões de dólares. Nos nossos dias, e para a desgraça dos estudantes menos preparados, há quem diga que hajam mais dólares a circular nas cidades cubanas de que a moeda local. Mas, não é a troca de divisas ou a desvalorização do Peso cubano é que afecta os estudantes nacionais. O problema é a falta de qualquer tipo de dinheiro.
E se em Cuba a falta de subsídios constitui o cume do problema, não menos grave é o drama vivido pelos outros estudantes guineenses nos países da antiga União Soviética, particularmente na Rússia. Recentemente, a reitoria russa da "Universidade Amizade" entre os povos prometeu expulsar mais de uma centena e meia de estudantes guineenses em princípio do mês de Julho deste ano, caso o governo de Bissau não regularizar as suas propinas. A decisão de expulsar os estudantes guineenses fora transmitida ao já extinto Governo de Transição. A nota diz que o governo de Bissau deveria ter pago o estudo, o alojamento e o seguro médico dos nossos estudantes até ao dia 15 de Agosto do ano transacto. Ao que parece, as reivindicações russas ainda não foram cumpridas.
Sabe-se também que pessoas ligadas à nossa embaixada na Rússia estão a viver numa situação miserável. Aliás, é já comum ouvir relatos das embaixadas que não funcionam; de representações diplomáticas sem corrente eléctrica e telefones; dos despejos e até do recurso ao sistema judicial contra o nosso corpo diplomático por falta de pagamentos das suas dívidas. Ironicamente, as nossas representações diplomáticas nos EUA já passaram pelas mesmas circunstâncias. Portanto, a situação é generalizada e nenhuma representação diplomática é totalmente imune.
Voltando à questão dos estudantes, numa recente comunicação proveniente de Cuba fiquei a saber de que os nossos estudantes nunca receberam os seus subsídios e o pessoal da embaixada também há meses que não recebe os devidos salários. (In)felizmente, Cuba não é como os EUA, a França ou o Portugal onde há um bom número de imigrantes guineenses que procuram e pagam pelos serviços consulares, nomeadamente a concessão de novos passaportes. Tais fundos podem ajudar de vez em quando, mas também não são suficientes para colmatar as despesas mínimas dessas instituições.
Assim sendo, Guiné-Bissau tem que começar a prestar uma grande atenção às situações dos nossos conterrâneos nos países menos favorecidos. Afinal de contas, todas essas pessoas que sofrem e labutam (e até mendigam) por esse mundo fora são guineenses e merecem um tratamento condigno. O governo, já agora o novo governo, deve desencadear acções urgentes para devolver dignidade aos milhares de estudantes ou representantes diplomáticos.
Guiné-Bissau não pode continuar a se refugiar nisto de "sermos um país pobre e sem recursos." O saneamento do país passa necessariamente pela melhoria de condições dos que de uma forma ou outra representam a imagem externa do país. Fazendo um paralelo à afirmação de Amílcar Cabral sobre as crianças que ele carinhosamente denominou de "flores da nossa luta," diria que os estudantes guineenses são "sementes do nosso desenvolvimento".
Como reza a história, os tempos mudam, mas mesmo que a Cuba e a antiga União Soviética não sejam fontes de inspiração e destinos mais procurados nos dias de hoje, temos uma dívida para com aqueles que dispõem de opacos recursos financeiros, continuando a depender, por isso, da benevolência das escolas cubanas ou soviéticas. Apesar de graves problemas com que esses estudantes se deparam, sei que eles ainda continuam a carregar as chamas da "esperança".
Chegou o tempo de devolver o riso e a dignidade aos diplomatas e estudantes. Cada um deve dar o seu quinhão. Da minha parte, dou a minha contribuição em memória das almas que se dissiparam pouco depois de terem cortado a meta académica, tal como Sôro, aliás Handem Ganó (que a alma dele descanse em paz). Dou o meu contributo para honrar tantos outros quadros e estudantes guineenses, cujos destinos têm encontrado inúmeras dificuldades, mas que ainda continuam a acreditar na imperiosidade de um diploma académico. Para todos estes, digo simplesmente, vale a pena o esforço e o sacrifício. E só rezo que o novo governo dê uma mãozinha. Um gesto neste sentido seria um grande serviço à nação guineense. Merecidamente.
data: Maio de 2004
