QUER OUVIR O HINO NACIONAL?
 
"Blog" de Umaro Djau: ONDE ESTÃO OS SINAIS DO NACIONALISMO?

"Blog" de Umaro Djau

THIS BLOG IS INTENDED TO HOST UMARO DJAU's ARTICLES AND REFLECTIONS ON A VARIETY OF ISSUES. MOST OF THE POSTED ARTICLES HAVE BEEN PUBLISHED IN NEWSPAPERS AND/OR MAGAZINES *** ESTE "BLOG" AGRUPA ARTIGOS DE UMARO DJAU E CONSTITUEM REFLEXÕES SOBRE VÁRIOS TEMAS. MUITOS DESTES ARTIGOS JÁ FORAM PUBLICADOS EM JORNAIS E REVISTAS.

Quarta-feira, Maio 05, 2004

ONDE ESTÃO OS SINAIS DO NACIONALISMO?

Nascí sob a bandeira verde e vermelha, ostentando uma esfera armilar (com quinas, pontos e castelos) por meio das duas cores. Era o chamado tempo de utramar ou da metrópole, dependendo do lugar em que o observador estivesse. Era o chamado tempo das colónias ou países de “Além-Mar” que vangloriavam com o mesmo hino, a mesma pátria, e a mesma língua--a de Camões, a língua lusitana. Estávamos ainda nos anos setenta e, mal aprendí entoar o hino português, lá se assinaram os acordos de Argélia, lá se deu o 25 de Abril, e lá se formalizou a independência. Hoje, vagas recordações aguardo dos tempos da chamada “Guiné Melhor”. Mal me lembro do general Spínola, dos Comandos Africanos e do hino dos nossos “conquistadores”. Ainda assim, na minha opaca memória, alguns versos, alguma melodia dos “heróis do mar”. Apenas isso!

Depressa crescí, e no céu nacional, a bandeira tricolora já desfraldava nos lugares nos quais outrora um soldado do utramar ou da metrópole teria dado uma continência a um superior militar ou civil. Nos astes, apenas mais uma côr adicional: a amarela que se somou às cores verde e vermelha. Mais em vez da esfera armilar e outros símbolos, os nossos “reconquistadores” optaram por uma estrela negra. Porquê? Nunca tentei saber, nem recebí uma explicação, ainda que os meus professores da escola primária tivessem nascidos e crescidos sob o signo da bandeira portuguesa a que muito conheciam e, creio eu, também adoravam.

Cronologicamente falando, estávamos nos anos setenta. O fulgor das colinas de Boé chegou às grandes cidades, e a esperança para uma “Guiné Melhor” parecia ter mais uma grande dose de estimulante: a independência nacional. Os antigos cidadãos do utramar tiveram que aprender novos hábitos e novas lições. Com esses hábitos, nasceram novos vocábulos e novas maneiras de respeitar e responder ao próximo. O “sim, senhor” foi substituido por “s’ta bon, camarada”! Mais: algumas cidades, ruas e famosos locais foram rebaptizados, sob o fulgor de um esfervecente nacionalismo. Nomes como Nova Lamego e Teixeira Pinto deram lugar às cidades de Gabú e Cacheu. Avenidas e praças como a de Honório Barreto deu lugar à praça Chê-Guevara. E assim sucessivamente. Mais ainda: outros lugares nunca ousaram reivindicar os seus originais nomes. Esses foram os casos do “Hotel Portugal” e do bar, pastelaria e restaurante “O Império”, isso para citar poucos exemplos dos que se mantiveram no silêncio, como se de uma clandestinidade se tratassse.

Era o nascer da jovem República “nacionalista” da Guiné-Bissau que se sentia na obrigação de reconhecer os ideias dos que empunharam as armas e libertaram a pátria do jugo português. Por isso mesmo, e sob à manta de uma nova cidadania, novos nomes, novas regras de convivência e tantas outras novas referências históricas passaram a fazer parte do novo quotidiano. Para a geração desse tempo a qual pertenço, ficou-se a conhecer os heróis ditos “imortais” como Amilcar Cabral, Domingos Ramos, Aerolino Cruz, Titina Silá, Canha na Tungé e outros imemoráveis nomes da luta de libertação.

Perante uma tal euforia e uma posição quase que radicalizada face à herança colonial, não aprendí a história de Portugal, nem tão pouco as cruzadas contra os Mouros, a batalha de Aljubarrota, ou ainda o tratado de Tordisilhas. E contrariamente daquilo que se poderia esperar, o que aprendí da minha própria história (que se diga a verdade) também não passa daquilo que um cidadão comum sabe--as histórias de Boé, de Guiledge, de Komo, de Kandjanbari e as do massacre de Pindjiguiti. Histórias que se reduziram às armas, ao fogo, às massacres e aos congressos!

Esta história da nação, feita de batalhas e de sangue, tornou a Guiné-Bissau num dos países que ficou a ser conhecido por entre aqueles que optaram por acções militares em protesto contra uma situação interna de carácter político e militar. Tudo, mais uma vez, em nome da independência e do grande nacionalismo que sacudiram o mundo nos anos sessenta e setenta.

Durante e mesmo após esse conturbado período, fez-se e refez-se a história ao agrado dos gregos e troianos. E claro, nessas curvas e contra-curvas histórico-políticas, esqueceram-se de outras referências, também elas histórico-sociais e políticas, não menos importantes para a reconstrução dos factos com interesse nacional. Assim, da história ou da geografia, pouco se conhece dos império de Gabú e da fortificação de Kansalá, e das suas importâncias sócio-culturais e antropológicas; das guerras tribais (também de interesse histórico) que antecederam o domínio militar Português; das campanhas de pacificação que se desencadearam ao decorrer do domínio colonial e da importância social e económica dos rios de Geba, Corubal e Farim.

Estas referências não só fazem história quando reconstruídas, mas constituem informações geográfica, social, cultural e antropológica dignas de realce. Mas, presumo eu, as marcas do nacionalismo não deixaram que as pesquisas estendessem para além dos parâmetros ideológicos, previamente estabelecidos. As poucas tentativas individuais que surgiram no decorrer dos últimos anos, não foram mais do que sacrifícios isolados, desprovidos de uma adequada benção dos governantes.

Por exemplo, o historiador Mário Sissokó mostrou-se em tempos determinante na sua pesquisa histórica em demonstrar que Gabú existiu como um império, em detrimento daquilo que ficou conhecido na história contemporânea da África Ocidental. O historiador guineense (se é que verdade aquilo que dizem fontes oficiosas) tentou, tentou e, por fim perdeu a esperança de ver reconhecida a sua original tese sobre o tal império. Pois, claro, são poucos os que lhe deram uma mãozinha. Mais uma vez (se é que verdade aquilo que os rumores indicam), as prioridades político-nacionalistas não deram oportunidades aos outros projectos que não envolvessem a política “histórica” dos ministérios que, nessa altura velavam por assuntos com esse tipo de objectivos. O carácter cêntrico das prioridades dessa altura eram pura e simplesmente em nome e à defesa do nacionalismo pós-independentista de 1973.

Outros sinais que já se perderam nas vagas recordações dos que labutam nas terras de “Cabral” são aqueles que até (diga-se a verdade) foram determinantes na propaganda política dos anos setenta. Organizações musicais como Super Mama Djombo, Nô Pintchâ, Kapa Negra, Cobiana Djaz, África Livre, Tchifri Pretu e ainda o grupo cultural e teatral “Esta é a Nossa Pátria Amada”, foram, em abono de verdade, alguns dos grandes sustentáculos dos regimes independentistas. Essas manifestações somaram-se às vozes líricas, poéticas e revolucionárias de ZÉ CARLOS que, com o seu “Apili Apili, Mindjeres de Panus Pretu” e tantos outros temas musicais, cimentaram na epiderme de cada guineense, a necessidade por um crescente nacionalismo.

Mas, as verdadeiras marcas do nacionalismo fizeram-se sentir nas esferas política, económica e social. Com o novo poder instalado entre 1973 e 1974, a recém- nascida República da Guiné-Bissau conheceu uma viragem que pouco tinha a ver com o período de transição que o país desejava. Noutras palavras, as intenções nacionalistas da época tiveram uma fraca resposta da parte das estruturas que se criaram à volta do aparelho militar pós-independentista. Mas, mercê à evolução política internacional dessa altura, nomeadamente a guerra fria, lá se conseguiu sobreviver, sem que uma estrutura económica eficaz, eficiente e funcional estivesse consolidada. Não se nacionalizaram-se terras como aconteceu em Angola e em Moçambique, porque elas quase não existiam, mas confiscaram-se propriedades e reverteram-se acções e, por último, estabeleceram-se novas filosofias. Que o digam a Casa Gouveia e o Banco Utramarino que se viram na obrigação de servirem aos novos anseios pós-independentistas e nacionalistas. Mas, primeiro, para não fugir à regra, foi preciso rebaptizá-los com nomes tais como os Armazéns de povo e o Banco Central da Guiné-Bissau, respectivamente.

Entretanto, um maior impacto teve a viragem político-militar que não só instalou um novo poder, mas deu uma nova cidadania ao guineense que deixou de honrar a bandeira portuguesa, que deixou de sonhar com a metrópole, que passou a ter um novo hino e que aprendeu novos versos--os de “sol, suor, verde e o mar”... , usando a mesma língua, o Português. Afinal, a única identidade (lê-se cultural e linguística) que se escapou do nacionalismo paigcista de pós-independência. Assim, A. Cabral, apesar de ter venerado e respeitado as ideologias do “O Manifesto do Comunismo” por Karl Marx e Friedrich Engels, preferiu honrar não só alguns princípios ocidentais, mas preservar, acima de tudo, a língua na qual muito bem sabia expressar os seus objectivos.

Hoje, passado quase um quarto de século depois da independência, as marcas que até a bem pouco tempo pareciam indeléveis do nacionalismo, estão a evaporar-se por entre as mãos de uma geração que não parece estar disposta a olhar muito para atrás. Como resultado, já não se entoam as canções de outros tempos, já não se veneram os heróis “imortais”, já não se comemoram as datas históricas e já não se exibe a etiqueta “antigu combatenti”. Também, por ironias da história, o “s’ta bon, camarada” está a ser substituido paulatinamente por o “sim, senhor”. E mais: o regulado foi de novo reinstituido, e os comités de tabancas viram tiradas as funções que desempenharam até muito recentemente. Enfim, são os sinais do nacionalismo que estão a se enterrar! Como se isto não bastasse, a moeda que os guineenses conheceram por um período de vinte e quatro anos, é também uma vítima desta campanha da liquidação do nacionalismo guineense.

Em tudo isso, foi preciso que muita tinta corresse sobre os panoramas político, económico e social, para que se ganhasse uma nova consciência nacional. Este novo movimento anti-nacionalista parece estar disposto a enterrar os sinais do comunismo (leia-se Não Alinhamento) a que ficou sujeito o país desde a sua independência em 24 de Setembro de 1973. Certa ou errada, a minha análise sugere que é preciso inovar, mas ao mesmo tempo respeitar os valores histórico-políticos conquistados ao longo da nossa existência como uma nação livre e soberana. Daí que por mais forte que sejam os ventos anti-nacionalistas, é importante lembrar que os deram as suas vidas à custa da nossa independência que constitue hoje, a razão da nossa existência, pelo menos como um estado soberano e democrático. Essas pessoas sim, merecem o nosso crédito, independentemente das actuais tendências políticas.

Mas, mais uma vez, por ironia da história, Cabral, Domingos Ramos e Titina Silá vão desaparecer do olhar e do sub-consciente do cidadão guineense, assim que as suas caras, ou melhor as suas efégies, heroicamente simbolizadas nas notas do ex-peso guineense, desaparecerem da circulação. Agora por culpa do novo anti-nacionalismo que se desenha sob o pretexto de uma integração económica regional. Voltando às efégies de Cabral e outros, será de facto uma pena que elas desapereçam. Mas se o destino que nos aguarda é relativamente menos sombrio, então aí valerá a pena sacrificá-los mais um pouco. Aliás, mais do que uma simples presença facial nas notas de cinquenta, cem, quinhentos, mil, cinco mil ou dez mil pesos, a melhor homenagem que poderíamos render aos heróis guineenses seria curar as sagas de milhares de almas que vagueam, desesperadamente, sem pão e nem sossego mental e psicológico.

No entanto, a questão central é como enfrentar os novos desafios sem distorcer a realidade a que ficámos habituados ao longo dessas duas décadas de independência. Ainda considerando a nossa adesão à zona UEMOA como um ponto de referência comum, advinham-se as dificuldades proceduais que se esperam nesta nova fase. A par do cepticismo à volta das previsões económicas a curto prazo, afiguram-se também os difícies exercícios vocal e matemático a que muitos dos nossos avôs e avós, acostumados aos “kuntus” e “pêss”, estarão agora sujeitos. Por exemplo, eles serão provavelmente obrigados a aprender uma nova maneira de cumprimentar os seus vizinhos doutro lado da rua. Na verdade, duvido que eles consigam dizer “bonjour, comment ça va”? ou discortinar uma nota de “deux cents francs”.

E nisso de integração económica, duvido mesmo que muitos dos quadros guineenses saibam ler correctamente um anúncio em françês ou escrever um relatório na referida língua, como muitas instituições a criar vão requirir. Perante questões sociais deste género, reconhece-se a pertinência de algumas interrogações tais como: onde está a tal identidade cultural e linguística para a qual se bateu durante décadas e décadas? Onde está o nacionalismo que se sustentou à custa de muitas vidas, muitas políticas de bastidores e de muitos sacrifícios?

A título conclusivo, eu diria que, mesmo em forma de especulação, o nacionalismo que se conquistou com armas ao punho e com muita propaganda política à mistura, está-se a perder, paciente e inconscientemente, nas mesas negociais, e por entres canetas nos dedos. Tudo num instante, como de um virar de uma página ou de um piscar do olho se tratasse. O célebre Luís de Camões, o autor das “Lusíadas”, tinha uma absoluta razão: “mudam-se os tempos, mudam-se as vontades”! Se para melhor ou pior, o futuro nos dirá.

***PUBLICADO EM NOVEMBRO DE 1999***

11 Comments:

  • At 6:58 AM, Anonymous Anónimo said…

    O PERCURSO De DR HUGO JOSÉ AZANCOT DE MENEZES

    Hugo de Menezes nasceu na cidade de São Tomé a 02 de fevereiro de 1928, filho do Dr Ayres Sacramento de Menezes.

    Aos três anos de idade chegou a Angola onde fez o ensino primário.
    Nos anos 40, fez o estudo secundário e superior em Lisboa, onde concluiu o curso de medicina pela faculdade de Lisboa.
    Neste pais, participou na fundação e direcção de associações estudantis, como a casa dos estudantes do império juntamente com Mário Pinto de Andrade ,Jacob Azancot de Menezes, Manuel Pedro Azancot de Menezes, Marcelino dos Santos e outros.
    Em janeiro de 1959 parte de Lisboa para Londres com objectivo de fazer uma especialidade, e contactar nacionalistas das colónias de expressão inglesa como Joshua Nkomo( então presidente da Zapu, e mais tarde vice-presidente do Zimbabué),George Houser ( director executivo do Américan Commitee on África),Alão Bashorun ( defensor de Naby Yola ,na Nigéria e bastonário da ordem dos advogados no mesmo pais9, Felix Moumié ( presidente da UPC, União das populações dos Camarões),Bem Barka (na altura secretário da UMT- União Marroquina do trabalho), e outros, os quais se tornou amigo e confidente das suas ideias revolucionárias.
    Uns meses depois vai para Paris, onde se junta a nacionalistas da Fianfe ( políticos nacionalistas das ex. colónias Francesas ) como por exemplo Henry Lopez( actualmente embaixador do Congo em Paris),o então embaixador da Guiné-Conacry em Paris( Naby Yola).
    A este último pediu para ir para Conacry, não só com objectivo de exercer a sua profissão de médico como também para prosseguir as actividades políticas iniciadas em lisboa.
    Desta forma ,Hugo de Menezes chega ao já independente pais africano a 05-de agosto de 1959 por decisão do próprio presidente Sekou -Touré.
    Em fevereiro de 1960 apresenta-se em Tunes na 2ª conferência dos povos africanos, como membro do MAC , com ele encontram-se Amilcar Cabral, Viriato da Cruz, Mario Pinto de Andrade , e outros.
    Encontram-se igualmente presente o nacionalista Gilmore ,hoje Holden Roberto , com o qual a partir desta data iniciou correspondência e diálogo assíduos.
    De regresso ao pais que o acolheu, Hugo utiliza da sua influência junto do presidente Sekou-touré a fim de permitir a entrada de alguns camaradas seus que então pudessem lançar o grito da liberdade.

    Lúcio Lara e sua família foram os primeiros, seguindo-lhe Viriato da Cruz e esposa Maria Eugénia Cruz , Mário de Andrade , Amílcar Cabral e dr Eduardo Macedo dos Santos e esposa Maria Judith dos Santos e Maria da Conceição Boavida que em conjunto com a esposa do Dr Hugo José Azancot de Menezes a Maria de La Salette Guerra de Menezes criam o primeiro núcleo da OMA ( fundada a organização das mulheres angolanas ) sendo cinco as fundadoras da OMA ( Ruth Lara ,Maria de La Salete Guerra de Menezes ,Maria da Conceição Boavida ( esposa do Dr Américo Boavida), Maria Judith dos Santos (esposa de um dos fundadores do M.P.L.A Dr Eduardo dos Santos) ,Helena Trovoada (esposa de Miguel Trovoada antigo presidente de São Tomé e Príncipe).
    A Maria De La Salette como militante participa em diversas actividades da OMA e em sua casa aloja a Diolinda Rodrigues de Almeida e Matias Rodrigues Miguéis .


    Na residência de Hugo, noites e dias árduos ,passados em discussões e trabalho… nasce o MPLA ( movimento popular de libertação de Angola).
    Desta forma é criado o 1º comité director do MPLA ,possuindo Menezes o cartão nº 6,sendo na realidade Membro fundador nº5 do MPLA .
    De todos ,é o único que possui uma actividade remunerada, utilizando o seu rendimento e meio de transporte pessoal para que o movimento desse os seus primeiros passos.
    Dr Hugo de Menezes e Dr Eduardo Macedo dos Santos fazem os primeiros contactos com os refugiados angolanos existentes no Congo de forma clandestina.

    A 5 de agosto de 1961 parte com a família para o Congo Leopoldville ,aí forma com outros jovens médicos angolanos recém chegados o CVAAR ( centro voluntário de assistência aos Angolanos refugiados).

    Participou na aquisição clandestina de armas de um paiol do governo congolês.
    Em 1962 representa o MPLA em Accra(Ghana ) como Freedom Fighters e a esposa tornando-se locutora da rádio GHANA para emissões em língua portuguesa.

    Em Accra , contando unicamente com os seus próprios meios, redigiu e editou o primeiro jornal do MPLA , Faúlha.

    Em 1964 entrevistou Ernesto Che Guevara como repórter do mesmo jornal, na residência do embaixador de Cuba em Ghana , Armando Entralgo Gonzales.
    Ainda em Accra, emprega-se na rádio Ghana juntamente com a sua esposa nas emissões de língua portuguesa onde fazem um trabalho excepcional. Enviam para todo mundo mensagens sobre atrocidades do colonialismo português ,e convida os angolanos a reagirem e lutarem pela sua liberdade. Estas emissões são ouvidas por todos cantos de Angola.

    Em 1966´é criada a CLSTP (Comité de libertação de São Tomé e Príncipe ),sendo Hugo um dos fundadores.

    Neste mesmo ano dá-se o golpe de estado, e Nkwme Nkruma é deposto. Nesta sequência ,Hugo de Menezes como representante dos interesses do MPLA em Accra ,exilou-se na embaixada de Cuba com ordem de Fidel Castro. Com o golpe de estado, as representações diplomáticas que praticavam uma política favorável a Nkwme Nkruma são obrigadas a abandonar Ghana .Nesta sequência , Hugo foge com a família para o Togo.
    Em 1967 Dr Hugo José Azancot parte com esposa para a república popular do Congo - Dolisie onde ambos leccionam no Internato de 4 de Fevereiro e dão apoio aos guerrilheiros das bases em especial á Base Augusto Ngangula ,trabalhando paralelamente para o estado Congolês para poder custear as despesas familhares para que seu esposo tivesse uma disponibilidade total no M.P.L.A sem qualquer remuneração.

    Em 1968,Agostinho Neto actual presidente do MPLA convida-o a regressar para o movimento no Congo Brazzaville como médico da segunda região militar: Dirige o SAM e dá assistência médica a todos os militantes que vivem a aquela zona. Acompanha os guerrilheiros nas suas bases ,no interior do território Angolano, onde é alcunhado “ CALA a BOCA” por atravessar essa zona considerada perigosa sempre em silêncio.

    Hugo de Menezes colabora na abertura do primeiro estabelecimento de ensino primário e secundário em Dolisie ,onde ele e sua esposa dão aulas.

    Saturado dos conflitos internos no MPLA ,aliado a difícil e prolongada vida de sobrevivência ,em 1972 parte para Brazzaville.

    Em 1973,descontente com a situação no MPLA e a falta de democraticidade interna ,foi ,com os irmãos Mário e Joaquim Pinto de Andrade , Gentil Viana e outros ,signatários do « Manifesto dos 19», que daria lugar a revolta activa. Neste mesmo ano, participa no congresso de Lusaka pela revolta activa.
    Em 1974 entra em Angola ,juntamente com Liceu Vieira Dias e Maria de Céu Carmo Reis ( Depois da chegada a Luanda a saída do aeroporto ,um grupo de pessoas organizadas apedrejou o Hugo de tal forma que foi necessário a intervenção do próprio Liceu Vieira Dias).

    Em 1977 é convidado para o cargo de director do hospital Maria Pia onde exerce durante alguns anos .

    Na década de 80 exerce o cargo de presidente da junta médica nacional ,dirige e elabora o primeiro simpósio nacional de remédios.

    Em 1992 participa na formação do PRD ( partido renovador democrático).
    Em 1997-1998 é diagnosticado cancro.

    A 11 de Maio de 2000 morre Azancot de Menezes, figura mítica da historia Angolana.

     
  • At 3:27 AM, Anonymous Anónimo said…

    UMA CRÍTICA MUITO DURA AOS MÉTODOS DO MPLA

    Ao saber da conversa ocorrida em Acra (Ghana), Lúcio Lara reagiu: « Os cubanos falam de mais»

    HUGO AZANCOT DE MENEZES

    Longe de mim a pretensão de ter feito história ou de escrevê-la.
    Contudo, vivi factos que envolvem, também , outros protagonistas.
    Alguns, figuras ilustres. Outros, gente humilde, sem nome e sem história, relacionados, apesar de tudo, com períodos inolvidáveis das nossas vidas.
    Alguns destes factos , ainda que de fraca relevância, podem ter interesse, como « entrelinhas da História», para ajudar a compreender situações controversas.
    Conheci Ernesto Che Guevara em Acra , em 1964, e comprometi - me a não publicar alguns temas abordados na entrevista que tive o privilégio de lhe fazer como « repórter» do jornal Faúlha.

    Já se passaram mais de 30 anos. O contexto actual é outro.
    Pela primeira vez os revelo, na certeza de que já não é o quebrar de um compromisso, nem a profanação de uma imagem que no
    A entrevista realizou-se na residência do embaixador de Cuba em Acra , Armando Entralgo González, que nos distinguiu com a sua presença.
    Ali estava Che…
    A sua tez muito pálida contrastava com o verde - escuro da farda.
    As botas negras, impecavelmente limpas.
    Encontrei-o em plena crise de asma, Socorria - se , amiúde, de uma bomba de borracha.
    Che Guevara , deus dos ateus, dos espoliados e dos explorados do terceiro mundo, deus da guerrilha, tinha na mão uma bomba, não para destruir mas para se tratar… de falta de ar. Aspirava as bombadas, dando sempre mostras de um grande auto -domínio.
    Fora-me solicitado que submetesse o questionário à sua prévia apreciação - e assim o fiz.
    Uma das questões dizia respeito à cultura da cana - de - açúcar em Cuba.
    Como encarava ele a aparente contradição de combater teoricamente a monocultura - apanágio dos sistemas de exploração colonial e tão típica dos sistemas de exploração colonial e tão típica do subdesenvolvimento - ao mesmo tempo que fomentava, ao extremo, a cultura da cana e a produção de açúcar - mono -produto de que Cuba se tornaria, afinal, cada vez mais dependente?
    Outro tema que nos preocupava, a nós , africanos, era o papel dos cidadãos cubanos de origem africana na revolução cubana e a fraca representação deles nos órgãos de direcção dos país e do partido, os quais tinham proscrito qualquer discriminação racial.
    Não constituiria o comandante Juan D´Almeida - único afro - cubano na direcção do partido - uma excepção?
    Entretanto, a crise de asma agudizava-se , o que nem a mim me dava o à - vontade requerido nem, obviamente, ao meu interlocutor a disposição necessária para o diálogo.
    Insistiu para que eu o iniciasse. Ao responder - lhe que não me sentia á vontade para fazê-lo, em virtude de seu estado, disse - me em tom provocante e com certa ironia :« Vejo que você é um jornalista muito tímido.»

    No mesmo tom lhe respondi, que não me tinha pronunciado como jornalista, mas como médico .« Comandante, as suas condições não lhe permitem dar qualquer entrevista», disse-lhe eu.
    Olhando-me , meio surpreso e sempre irónico, replicou: « Companheiro, eu não falo como doente, também falo como médico.
    Em meu entender, estou em condições de dar a entrevista.»
    Mas a crise de asma não melhorava, tornando impossível o diálogo. Foi necessário adiá-lo.
    Reencontrámo-nos dias depois. Estava, então, quase eufórico. Referindo-se á atitude dos cidadãos cubanos de origem africana, à sua fraca participação na revolução, disse não gostar de se referir á origem ou à raça dos homens.
    Apenas à espécie humana, a cidadãos, a companheiros.
    Manifestei-lhe a minha total concordância. «A verdade », disse-lhe eu, «é que a revolução cubana tinha suscitado em todos nós , africanos, uma enorme expectativa, muita esperança, pois que, pela primeira vez, assistia-mos a um processo revolucionário de cariz marxista, num país subdesenvolvido e eis - colonial , tendo, lado a lado, cidadãos de origem europeia e africana, e onde a discriminação racial tinha sido, e ainda era, tão notório.»
    Cuba seria pois, para nós, africanos, um teste. Seguíamos atentamente a sua evolução e queríamos ver como seria resolvido este problema.
    Muitos, em África, mostravam-se cépticos. Mais do que interesse, da nossa parte existia ansiedade.
    Segundo Che Guevara , a população de origem africana, a principio, não participava no processo. Via-o com uma certa indiferença, como mais uma luta…
    «deles». Mas a desconfiança estava a desaparecer, era cada vez maior a adesão, á medida que iam constatando que este processo era totalmente diferente daqueles que o precederam. Que era um processo para todos.
    Che Guevara acabava de chegar do Congo - Brazzaville.Visitara as bases do MPLA em Cabinda (de facto, na zona fronteiriça Congo/ Brazzaville /Cabinda) .
    Pedi - lhe que me desse as impressões da sua visita. Che não era um diplomata, mas um guerrilheiro, e foi directamente à questão:
    « O MPLA tem ao seu dispor condições de luta excepcionais.
    Quem nos dera a nós que, durante a guerrilha, em Cuba, tivéssemos algo comparável. Mas estas condições não estão a ser devidamente aproveitadas, exploradas …
    O MPLA não luta, não procura o inimigo , não ataca…
    O inimigo deve ser procurado, deve ser fustigado, deve ser perseguido, mesmo no banho. Agostinho Neto está a utilizar a luta armada apenas como mero instrumento de pressão política.»
    Dei parte da conversa a Agostinho Neto. Não reagiu. Tal como a Lúcio Lara, que me respondeu:
    « Os cubanos falam demais.»
    Mas Che falava verdade. Durante vários anos, na minha qualidade de responsável dos serviços de assistência médica da 2º região político - militar do MPLA (Cabinda ) , fui disso testemunha a cada passo.
    Aí e assim , como contestação a esta e outras situações idênticas, surgiria dentro do movimento, antes de Abril de 1974, a Revolta Activa.

    Hugo José Azancot de Menezes foi médico. Foi um dos fundadores do MPLA

     
  • At 3:27 AM, Anonymous Anónimo said…

    MOVIMENTO POPULAR DE LIBERTAÇÃO DE
    DE ANGOLA
    M.P.L.A.
    51,Avenue Tombeur de Tabora
    LEOPOLDVILLE




    COMITÉ
    DIRECTOR


    NACIONALISTAS ANGOLANOS



    Transcreve-se a nota Nº .A/M/F enviada ,em 10.11.1961, ao comité Executivo da União das populações de ANGOLA:

    “ Como V.Exas. Sabem, em nove de setembro de 1961, uma esquadra da nossa organização militar, que se dirigia a Nambuangongo em missão de socorro às populações cercadas pelas tropas portuguesas , foi , pela traição, cercada e feita prisioneira por grupos armados da União das Populações de Angola que actuam no corredor de entrada e saída dos patriotas angolanos.

    Desde aquela data até hoje, mantendo - se embora vigilante e tendo conhecimento , não sem revolta, dos maus tratos que foram infligidos por militantes da UPA aos nossos compatriotas, o comité Director do M.P.L.A. Esperou ver qual seria o comportamento dos órgãos dirigentes da UPA
    Diante desse crime de lesa - pátria e que enodoa o digno movimento patriótico do povo angolano.

    O Comité Director do M.P.L.A. Faz o mais enérgico protesto contra esse acto anti - patriótico, que visa a enfraquecer a resistência armada do povo angolano e que introduz, por iniciativa da UPA, a luta fratricida nos campos de batalha de Angola.
    Sob pena desse “ affaire “ ser levado imediatamente ao conhecimento da opinião pública e dos organismos internacionais , o comité Director do MPLA

    “ - exige a imediata libertação de todos os nossos compatriotas;
    “ - exige a entrega de todos as armas, munições e demais bagagens

    “ - que foram retirados aos guerrilheiros daquela nossa esquadra ; e

    “ - responsabiliza, desde já , a união das populações de Angola pela


    “ - vida desses nossos valorosos compatriotas.

    “ Na expectativa, subscrevemo-nos


    Atenciosamente

    (ass) Mario Pinto de Andrade
    Viriato da cruz
    Matias Miguéis
    Eduardo dos Santos
    Hugo de Menezes

     
  • At 3:28 AM, Anonymous Anónimo said…

    PARTIDO AFRICANO DA INDEPENDÊNCIA DA GUINÉ E CABO VERDE
    Sede: Bissau
    Conacry , 20 de Fevereiro de 965



    Mr. Hugo MENEZES

    P.O.BOX 1633

    ACCRA (Ghana)


    Caro amigo,

    Em resposta à sua carta de 23 de Novembro último, temos a dizer-lhe o seguinte:

    1º/ - A iniciativa da publicação, no Ghana, de um jornal em língua portuguesa, parece - nos digna do maior interesse, não podendo nos deixar de dar todo o apoio aos amigos que se dedicam à concretização dessa ideia;

    2º/ - Nesse intuito, pensamos pôr, em breve, à vossa disposição, algum material escrito e fotográfico, expor -vos as nossas sugestões e enviar - vos a colaboração escrita que nos pedem;

    3º/ - Dada que a sua carta nos chegou num período em que o nosso secretário geral se encontrava no interior do pais , de onde regressou apenas há alguns dias, não nos foi ainda possível enviar-lhe o artigo pedido para o primeiro número do jornal. Contamos, entretanto, poder fazê-lo brevemente.

    Apresente as nossas melhores felicitações a todos quanto trabalhem para que o jornal seja em breve uma realidade.

    Com os melhores votos, queiram receber as nossas

    SAUDAÇÕES COMBATIVAS


    VASCO CABRAL



    SECRETARIAT GENERAL: B,P. 298 CONAKRY- REPUBLIQUE DE GUINÉE

     
  • At 3:28 AM, Anonymous Anónimo said…

    Caro Hugo




    Saúde para si e para a família. Nós por cá tudo normal excepto a complicação dos disparates dos amigos da Firma UPA- PDA que se pretendem grandes vítimas do nacionalismo angolano quando é certo sofrerem do nacionalismo de ricos…
    Deves estar ao corrente de que provavelmente na 2ª quinzena de Setembro se deve realizar o congresso popular para modificações disciplinares no nosso movimento. Como todos os membros do comité Director devem assistir a ele, era e é máxima conveniência que respondesse ao telegrama que o MPLA te enviou confirmando a minha aceitação da proposta do presidente Nkrumah e tua a fim de eu ficar a trabalhar em Accra.

    Convém que me responda se recebeu o telegrama e quando conta que eu possa aparecer aí, para também aqui se fazer um plano de trabalho de sorte a minha ausência mesmo inopinada não prejudique a boa marcha das coisas.
    Recomendações da minha família à sua.
    Abraço e saudações nacionalistas.
    Ao seu dispor
    Leo , 30/08/ 1962

    José Domingos

     
  • At 3:29 AM, Anonymous Anónimo said…

    Léopoldville ,13 de Novembro de 1962




    Meu Caro Hugo, ( Hugo José Azancot de Menezes)

    Em 20 de setembro ultimo, escrevi - te para que, por mim, agradecesses à Salette pela compota enviada e me dissesses algo quanto ao destino a dar os 18.090,- CFA que recuperei da chargeur reuni como reembolso do bilhete Pointe Noire /Lomé, não utilizado pela tua família.
    Em 29 daquele mesmo mês a pedido do Mário , fiz-te um telegrama por este ditado, exageradamente conciso, pedindo-te para que na medida do possível, dispusesses as coisas de forma a tomares o primeiro barco para Léopoldville que por aí passasse depois daquela data. Só agora vejo que, contrariamente ao que o Mário me convenceu era ele quem deveria ter assinado o telegrama em causa.

    Ontem, enderecei - te meu segundo telegrama, rogando a tua intervenção junto das autoridades Ghaneenses, no sentido de facilitarem o desembarque do Carreira em Tokoradi.
    Receio, pois, que este meu telegrama (último) venha merecer sorte igual do meu anterior correio.
    Não quero sequer discutir a “ grandeza” das razões que estariam militando a favor do teu silêncio, a ponto até de darem primazia à falta de indicação de tua parte quanto ao destino a dar aquela “ massa” em meu poder.
    Quero apenas pedir-te ,por favor, a tua melhor atenção e interesse neste assunto Carreira, informando-nos a tempo no que virão resultar as tuas “ demarches” para assim sabermos para onde enviar o “ Título de viagem” conseguido à seu favor.

    Ainda sobre o telegrama de 20/9: talvez não fosse descabido se contactasses o Mário acerca do seu conteúdo , isto é , se ainda o não fizeste.
    O Aníbal de Melo diz te ter feito carta pedindo as gravuras - ( titulo - pequeno e grande - do jornal) .

    Recomendações à Salete e beijos aos V/ pequenos. Aceita um aperto de mão cordial do Camarada Matias.

    Matias Migueis

     
  • At 3:30 AM, Anonymous Anónimo said…

    UMA CRÍTICA MUITO DURA AOS MÉTODOS DO MPLA

    Ao saber da conversa ocorrida em Acra (Ghana), Lúcio Lara reagiu: « Os cubanos falam de mais»

    HUGO AZANCOT DE MENEZES

    Longe de mim a pretensão de ter feito história ou de escrevê-la.
    Contudo, vivi factos que envolvem, também , outros protagonistas.
    Alguns, figuras ilustres. Outros, gente humilde, sem nome e sem história, relacionados, apesar de tudo, com períodos inolvidáveis das nossas vidas.
    Alguns destes factos , ainda que de fraca relevância, podem ter interesse, como « entrelinhas da História», para ajudar a compreender situações controversas.
    Conheci Ernesto Che Guevara em Acra , em 1964, e comprometi - me a não publicar alguns temas abordados na entrevista que tive o privilégio de lhe fazer como « repórter» do jornal Faúlha.

    Já se passaram mais de 30 anos. O contexto actual é outro.
    Pela primeira vez os revelo, na certeza de que já não é o quebrar de um compromisso, nem a profanação de uma imagem que no
    A entrevista realizou-se na residência do embaixador de Cuba em Acra , Armando Entralgo González, que nos distinguiu com a sua presença.
    Ali estava Che…
    A sua tez muito pálida contrastava com o verde - escuro da farda.
    As botas negras, impecavelmente limpas.
    Encontrei-o em plena crise de asma, Socorria - se , amiúde, de uma bomba de borracha.
    Che Guevara , deus dos ateus, dos espoliados e dos explorados do terceiro mundo, deus da guerrilha, tinha na mão uma bomba, não para destruir mas para se tratar… de falta de ar. Aspirava as bombadas, dando sempre mostras de um grande auto -domínio.
    Fora-me solicitado que submetesse o questionário à sua prévia apreciação - e assim o fiz.
    Uma das questões dizia respeito à cultura da cana - de - açúcar em Cuba.
    Como encarava ele a aparente contradição de combater teoricamente a monocultura - apanágio dos sistemas de exploração colonial e tão típica dos sistemas de exploração colonial e tão típica do subdesenvolvimento - ao mesmo tempo que fomentava, ao extremo, a cultura da cana e a produção de açúcar - mono -produto de que Cuba se tornaria, afinal, cada vez mais dependente?
    Outro tema que nos preocupava, a nós , africanos, era o papel dos cidadãos cubanos de origem africana na revolução cubana e a fraca representação deles nos órgãos de direcção dos país e do partido, os quais tinham proscrito qualquer discriminação racial.
    Não constituiria o comandante Juan D´Almeida - único afro - cubano na direcção do partido - uma excepção?
    Entretanto, a crise de asma agudizava-se , o que nem a mim me dava o à - vontade requerido nem, obviamente, ao meu interlocutor a disposição necessária para o diálogo.
    Insistiu para que eu o iniciasse. Ao responder - lhe que não me sentia á vontade para fazê-lo, em virtude de seu estado, disse - me em tom provocante e com certa ironia :« Vejo que você é um jornalista muito tímido.»

    No mesmo tom lhe respondi, que não me tinha pronunciado como jornalista, mas como médico .« Comandante, as suas condições não lhe permitem dar qualquer entrevista», disse-lhe eu.
    Olhando-me , meio surpreso e sempre irónico, replicou: « Companheiro, eu não falo como doente, também falo como médico.
    Em meu entender, estou em condições de dar a entrevista.»
    Mas a crise de asma não melhorava, tornando impossível o diálogo. Foi necessário adiá-lo.
    Reencontrámo-nos dias depois. Estava, então, quase eufórico. Referindo-se á atitude dos cidadãos cubanos de origem africana, à sua fraca participação na revolução, disse não gostar de se referir á origem ou à raça dos homens.
    Apenas à espécie humana, a cidadãos, a companheiros.
    Manifestei-lhe a minha total concordância. «A verdade », disse-lhe eu, «é que a revolução cubana tinha suscitado em todos nós , africanos, uma enorme expectativa, muita esperança, pois que, pela primeira vez, assistia-mos a um processo revolucionário de cariz marxista, num país subdesenvolvido e eis - colonial , tendo, lado a lado, cidadãos de origem europeia e africana, e onde a discriminação racial tinha sido, e ainda era, tão notório.»
    Cuba seria pois, para nós, africanos, um teste. Seguíamos atentamente a sua evolução e queríamos ver como seria resolvido este problema.
    Muitos, em África, mostravam-se cépticos. Mais do que interesse, da nossa parte existia ansiedade.
    Segundo Che Guevara , a população de origem africana, a principio, não participava no processo. Via-o com uma certa indiferença, como mais uma luta…
    «deles». Mas a desconfiança estava a desaparecer, era cada vez maior a adesão, á medida que iam constatando que este processo era totalmente diferente daqueles que o precederam. Que era um processo para todos.
    Che Guevara acabava de chegar do Congo - Brazzaville.Visitara as bases do MPLA em Cabinda (de facto, na zona fronteiriça Congo/ Brazzaville /Cabinda) .
    Pedi - lhe que me desse as impressões da sua visita. Che não era um diplomata, mas um guerrilheiro, e foi directamente à questão:
    « O MPLA tem ao seu dispor condições de luta excepcionais.
    Quem nos dera a nós que, durante a guerrilha, em Cuba, tivéssemos algo comparável. Mas estas condições não estão a ser devidamente aproveitadas, exploradas …
    O MPLA não luta, não procura o inimigo , não ataca…
    O inimigo deve ser procurado, deve ser fustigado, deve ser perseguido, mesmo no banho. Agostinho Neto está a utilizar a luta armada apenas como mero instrumento de pressão política.»
    Dei parte da conversa a Agostinho Neto. Não reagiu. Tal como a Lúcio Lara, que me respondeu:
    « Os cubanos falam demais.»
    Mas Che falava verdade. Durante vários anos, na minha qualidade de responsável dos serviços de assistência médica da 2º região político - militar do MPLA (Cabinda ) , fui disso testemunha a cada passo.
    Aí e assim , como contestação a esta e outras situações idênticas, surgiria dentro do movimento, antes de Abril de 1974, a Revolta Activa.

    Hugo José Azancot de Menezes foi médico. Foi um dos fundadores do MPLA

     
  • At 4:17 AM, Anonymous Anónimo said…

    Alger,1. Agosto. 1965

    Caro camarada,


    Cordiais saudações.


    Os camaradas do centro acabam de pôr ao corrente do teu bilhete, a propósito da minha ida para Accra. Por isso me apresso a responder.
    A ideia da minha ida continua de pé. Pelo meu lado,ela depende só mente da obtenção de documentação necessária para viajar. Com efeito, até à data não a conseguiu obter e, com a recente alteração aqui registada, tudo teve de voltar ao ponto zero, dado terem advindo alterações nos organismos encarregados das relações com os movimentos. Porem , essas relações encaminham-se para a normalização e é de esperar que, dentro de 15 dias, se possa tornar a pôr a questão. Daí o não poder indicar-te nome para o bilhete.
    Dada esta regularização, pelo lado, e a necessária aquiscência das autoridades daí, creio que o melhor será continuarmos a tratar, cada um, da resolução destes dois problemas fundamentais ,com a vigência necessária e , logo que eles estiverem resolvidos.
    Comunicamos mútua e imediatamente a sua solução.
    Assim ,logo que esteja em condições de poder viajar comunicar-te-ei imediatamente.
    Li atenciosamente o exemplar do “Faúlha” que enviaste ao centro e, francamente , fiquei animado com a linha política que ele defende e com o nível, a um tempo acessível e aprofundado ,das questões expostas.
    As possibilidades que um tal jornal oferece à Revolução nas colónias portuguesas são imensas e ele vem , assim, cobrir a falta que fazia notar, de um orgão ideológico.
    Se fosse possível ( Sei que o teu tempo é extraordinariamente sobrecarregado) gostaria que me pusesses a par das tuas ideias sobre a linha política do jornal, as necessidades imediatas a que ele tem de responder e , a longo termo, as grandes linhas sobre as quais ele se deve desenvolver, com o decorrer do tempo.
    Isto permitir-me-ia enquadrar-me , desde já, na própria ideologia do jornal e, assim, no meio de Argel, procurar contactar pessoas ( Se achares válido) que possam colaborar, assim como material de informação e estudo que poderão ser úteis.

    Antes de terminar, gostaria de expressar as minhas sinceras felicitações pelo número que saiu, felicitações redobradas, se se levar em linha de conta todas as dificuldades que se te deparam e que tiveste de ultrapassar para a sua aparição.

    Um grande abraço do
    Camarada,

    Hélder Neto


    Carta pertencente ao espolio do Dr Hugo José Azancot de Menezes ( um dos fundadores do M.P.L.A.)

     
  • At 3:17 AM, Anonymous Anónimo said…

    GHANA BROADCASTING CORPORATION

    Broadcasting house, P.O. ´BOX 1633
    Accra, Ghana 19th November ,1962

    MY Ref . Nº DOB.295/120

    Sir,

    I have the honour to offer you new terms of engagement on Programme Contract in the Portuguese section of RADIO GHANA with effect from today.

    Duration of Engagement: - The engagement will be for a period of two years in the first instance but will be subject to renewal at the end of that time if you wish it and , if your work has been satisfactory.

    The engagement can be terminated by two months notice being given by either side or alternatively - on Radio Ghana´S side - by the payment of two months salary in lieu of notice.

    Salary: - Your salary will be £100 a month and will be subject to Ghanaian Income Tax and Compulsory Savings both of which will be deducted at source. The compulsory Savings is returnable.

    Accommodation: - Hard furnished accommodation - bungalow or self - contained flat will be available at Accra. The rent will be £90 per year.

    Leave : On completion of year` service you will be eligible for 36 days paid leave.

    Free Medical Attention : While on this engagement in Ghana you will be eligible to receive free medical and dental treatment.

    Duties : - Your duties will be to work as a producer and Announcer / Translator in the Portuguese Section of Radio Ghana assisting in edit: translating and announcing news bulletins, commentaries and programmes in Portuguese, in writing, preparing and producing material suitable for inclusion in these programmes; and for any assistance that may be requied of you for the general programme output in Portuguese or in English.
    You will be expected to work full time for Radio Ghana during outside activities such as commercial work or writing for the Press can be undertaken only with the permission of the Director.

    I have the honour to be,
    Sir,
    Your obedient Servant,

    (W.F. Coleman)
    Director of Broadcasting

    Dr. Hugo de Menezes,
    Portuguese Section,
    Broadcasting House,
    Accra.

     
  • At 3:17 AM, Anonymous Anónimo said…

    DOLISIE, 3 DE MAIO DE 1971



    PREZADO CAMARADA MONSTRO,


    Apenas algumas linhas para vos enviar as nossas melhores e fraternais saudações.
    Muito grato ficamos pela sua carta - e não são estas curtas linhas que traço agora
    que vão constituir uma resposta à mesma. Oportunamente , escrever -lhe-ei uma carta maior.
    Creia que é meu desejo sincero que nos correspondamos. O filme feito aqui , quando da sua passagem por Dolisie , ainda não chegou. Estou muito admirado com este tempo de demora, pois que de costume recebemos os filmes depois de 2 a 3 semanas depois de tirados.
    A camarada Salete envia - vos miutos cumprimentos; espero que a receita saia boa.
    Por hoje é tudo. Aceite, prezado camarada,as minhas melhores saudações. Cumprimentos à camarada Luiza.


    Hugo

    (Hugo José Azancot de Menezes)

     
  • At 3:18 AM, Anonymous Anónimo said…

    Caro Hugo




    Saúde para si e para a família. Nós por cá tudo normal excepto a complicação dos disparates dos amigos da Firma UPA- PDA que se pretendem grandes vítimas do nacionalismo angolano quando é certo sofrerem do nacionalismo de ricos…
    Deves estar ao corrente de que provavelmente na 2ª quinzena de Setembro se deve realizar o congresso popular para modificações disciplinares no nosso movimento. Como todos os membros do comité Director devem assistir a ele, era e é máxima conveniência que respondesse ao telegrama que o MPLA te enviou confirmando a minha aceitação da proposta do presidente Nkrumah e tua a fim de eu ficar a trabalhar em Accra.

    Convém que me responda se recebeu o telegrama e quando conta que eu possa aparecer aí, para também aqui se fazer um plano de trabalho de sorte a minha ausência mesmo inopinada não prejudique a boa marcha das coisas.
    Recomendações da minha família à sua.
    Abraço e saudações nacionalistas.
    Ao seu dispor
    Leo , 30/08/ 1962

    José Domingos

     

Enviar um comentário

<< Home