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"Blog" de Umaro Djau: O LÉXICO DOS DITADORES

"Blog" de Umaro Djau

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Sexta-feira, Maio 07, 2004

O LÉXICO DOS DITADORES

A chegada de Doutor Kulumba ao poder foi festejado com pompa e circunstância. As populações da ilha ficaram entusiasmadas com a nova liderança e, como sinal de alívio, celebraram durante dias a ascensão do homem de tabanca. Batuques, dança e trajes tradicionais encheram de cor os festejos comemorativos da partida do ditador e da chegada de novo líder. Mas, mal os tambores deixaram de soar, o novo Chefe, ficou confinado no seu quadrante mágico. E a partir de um poder mítico e ensombrado, Doutor Kulumba começou a fazer alianças com os tecnocratas da praça pública (muitos deles antigos aliados do regime do General Nimba) e rapidamente ergueu uma fortaleza à volta do seu círculo.

Primavera após primavera, os lamentos aumentaram, a lástima agudizou-se, a confusão instaurou-se e o sofrimento agravou-se. Na melancolia da ilha surgem vozes discordantes, mas o homem que outrora opusera à ditadura diz que a culpa é doutrem e quis inventar um modelo que o colocasse numa situação vantajosa e de permanente superioridade. Doutor Kulumba é um homem educado, mas falta-lhe ainda a pedagogia política característica dos que ostentam a coroa da ditadura. Na verdade, ele quer igualar-se aos líderes dos países como o Zimbabué, o Togo, o Gabão, e a Libéria. Ele tem na mente figuras como as de Robert Mugabe, Gnassingbe Yadema, Omar Bongo e Charles Taylor. Ele quer ser implacável e invencível. Ele quer ser também um homem do povo, nacionalista, lutador, estadista e, acima de tudo, um africano de corpo e alma.

Foi daí que Doutor Kulumba decide mergulhar-se numa constante procura de conhecimentos na arte de domar, mas também de intimidar e sacrificar o povo, quando necessário. O todo-poderoso sabe que o povo da ilha dificilmente poderia aceitar uma outra monarquia. Assim, o dito democrata, vestido de uma cara afável, apressa-se a aprender a arte da perpetuação no poder. Em vez de governar a ilha, Doutor Kulumba cria feudos políticos, sociais e tribais contrários à qualquer imaginação popular. Nas tardes do calor, o povo da ilha interroga-se: como é que um homem tão habilitado como Doutor Kulumba é capaz de ignorar as lamentações da gente da ilha?

A resposta não tarda a chegar. Afinal de contas, numa das viagens secretas aos países além-mar, Doutor Kulumba foi pedir conselhos a um dos velhos tiranos da região, o Rei Malmatar. Aquando da viagem, Doutor Kulumba tinha uma coisa na mente. Ele sabe que é autoritário por natureza, mas quer apresentar-se ao mundo como sabedor, culto e aberto à liberdade, ao diálogo e ao desenvolvimento. O desafio que Doutor Kulumba coloca ao monarca é como reconciliar as múltiplas personalidades suas com a retórica da política guiada pelo absolutismo.
O encontro com o Rei Malmatar foi cordial e amigável. Eis a conversa que os dois mantiveram no Palácio do Povo:

Doutor Kulumba: Sua excelência, obrigado por me ter dado esta grande oportunidade. Como nasce a ditadura num país como o meu?
Rei Malmatar: Sem dúvida nenhuma, um ditador tem que ter um controlo total sobre os meios da comunicação social. A imprensa escrita não basta. Nos nossos dias, a maior incidência tem que estar sobre a rádio e a televisão. não há nenhum ditador capaz de sobreviver às criticas da imprensa local, capazes de expor a sua má gestão e os seus abusos. Este controlo pode ser feito em diversas formas. Primeiro, nós temos uma lei de imprensa restrita. Por exemplo, todos os jornais e revistas têm que renovar as suas licenças de publicação anualmente. Esta táctica é como colocar uma faca nos seus pescoços. Um ditador deve meter medo aos jornalistas, dando-lhes a impressão que qualquer um pode ser chamado à justiça, mesmo escrevendo coisas banais. Confesso que no meu país, ninguém tem uma liberdade editorial, mas mesmo assim, vão dando sinais de vida diariamente. O melhor ainda é ser o proprietário de todas as publicações e transformá-las em órgãos de propaganda política, favorecendo a imagem do Presidente e a do partido dele. No fim do dia, o que vai acontecer é ver todos os jornalistas mergulhados em auto-censura. Nestas circunstâncias, ninguém se atreve a difamar a minha pessoa, nem tão pouco os meus servidores.

Doutor Kulumba: Mas, há agências internacionais de informação! Que estratégias existem para lidar com elas?
Rei Malmatar: Este é um bom ponto. As agências internacionais de informação são muito problemáticos. Elas costumam dizer a verdade ao meu povo, não apenas a minha versão da verdade. Felizmente, a maioria aqui não tem acesso a estes órgãos. são poucos os que podem comprar os aparelhos de rádio ou uma televisão. Mas, de qualquer modo, tentamos descrever estes órgãos como sendo "mentirosos" sempre que publiquem uma notícia que fere a nossa sensibilidade. Eu tento mentalizar o meu povo sobre as tentativas da imprensa estrangeira em influenciar a nossa maneira de pensar. Sempre que possa, acuso-os de estarem a denegrir a imagem do meu reino e de desenvolverem uma campanha de desestabilização. Desta forma, toda a gente fica descontente com tudo o que é emitido a partir de fora. Sempre que a nossa persistência não seja suficiente, optamos pelo pior: proibir a retransmissão dos órgãos estrangeiros; revogar as suas licenças ou expulsar os seus jornalistas. Mas, o mais engraçado em tudo isto é que, sempre que os órgãos internacionais difundam um aspecto positivo relativo à minha liderança, obrigo os nacionais a publicitar o assunto rapidamente.

Doutor Kulumba: Muito bem. Mas confesso que o meu maior problema tenha sido o poder judicial...
Rei Malmatar: Meu amigo, a instituição judicial tem que ser mesmo controlada com muito rigor. A regra aqui é nomear os fiéis e afastar os que pretendem fazer vincar a verdadeira justiça. No meu caso, há muito tempo que mandei expulsar as figuras mais notáveis do país ligadas ao sector da justiça. Sempre acuso-as de corrupção que é, de facto, a maneira mais fácil de incriminar alguém. A nota importante é fazer o possível de manter pessoas fáceis de corromper no topo de todas as instâncias judiciais, desde nos tribunais e até aos órgãos policiais. E finalmente, procure criar uma falta de sintonia entre o Supremo Tribunal de Justiça, a Procuradoria Geral da República e os tribunais. Mais desorientados forem, melhor para mim e para o poder estabelecido. Quanto à Polícia, nomeie alguém que não tem uma mínima ideia sobre as leis internacionais da amnistia. Sabendo que podem passar horas a fio nas esquadras da polícia, os meus cidadãos nem sequer temem fazer um mínimo barulho. Portanto, os tribunais só existem para agradar o mundo ocidental. Ninguém os usa!

Doutor Kulumba: Tem havido movimentações no meu país para fomentar greves e demonstrações anti-governamentais. Tive o medo de que isto poderia acelerar a minha caída, sobretudo porque tínhamos um parlamento. Algum conselho em como tratar problemas deste género?
Rei Malmatar: Primeiro, congratulo-lhe pela coragem em dissolver o parlamento e fico feliz em saber que o seu país concede este tipo de poder ao Presidente. Dissolver um parlamento é a forma mais fácil de fazer calar as vozes da oposição, sobretudo quando o partido político do Presidente da República não dispõe de uma maioria absoluta. Sempre que saibam que os seus salários estão em causa, aí deixam o Presidente em paz. Portanto, nem sempre têm a coragem de puxarem os meus cordelinhos porque sabem o que pode advir de uma excessiva pressão. Voltando à questão das demonstrações, diria que é preciso ter uma força policial que nos é leal. Temos que ter a certeza de que estes homens utilizarão todos os meios necessários para dispersar qualquer manifestação popular. O segredo é treinar agentes que possam criar confusões entre os manifestantes. Isto dá-nos a razão de podermos intervir, usando meios violentos. Ao fim do dia, a culpa é da oposição e dos organizadores.

Doutor Kulumba: A minha agenda nacional não tem peso nenhum. Já explorei tudo o que é possível nacionalmente, mas parece-me que o povo já não me escuta. E confesso que gosto de atenção...
Rei Malmatar: Oh...também eu gosto de muita atenção! (risos)...Se pretender estar no centro de atenção, em primeiro lugar tem que criar um inimigo externo. Tenho estado a dizer ao meu povo que as forças estrangeiras querem colonizar-nos de novo. Acuso-as do excesso da arrogância. Assim, peço a união do meu povo contra aqueles que nos querem explorar de novo. Meu amigo, não há nada melhor que criar uma crise diplomática para mudar os focos do meu povo. Em vez de se debruçarem sobre os problemas internos, passam o tempo a discutir as culpas das potências estrangeiras. Está a ver, meu amigo, o melhor remédio para quem não tem uma agenda é criar constantes crises, envolvendo, na medida do possível, interesses estrangeiros. Na medida do possível, delegamos os nossos servidores mais directos a darem a cara. Assim, quando as coisas se descarrilarem para o negativo, a culpa é daqueles com menos peso na hierarquia. Doutro lado, você tem que ter na mente que o investimento estrangeiro é preciso para incentivar a economia local. Por isso, um estadista tem que ter dois tipos de discursos: um público e um outro privado. Enquanto criticamos em público, mudamos de tónica nos bastidores diplomáticos. Lembre-se de uma coisa: inimigos públicos nem sempre são inimigos. Está a ver, meu amigo, este lindo palácio onde nos encontramos foi construído pelo antigo colonizador e até se encarregam das renovações anuais. Muito bonito, não é?!

Doutor Kulumba: Absolutamente! E quanto à oposição?
Rei Malmatar: Oposição?! Eu prefiro a falta dela, mas se ela existe, o importante é criar fragmentações. Se os partidos na oposição optarem por uma união, o melhor é criar diferenças entre eles ao ponto de não estarem em sintonia no que diz respeito à qualquer agenda. Uma das opções é permitir a proliferação dos partidos políticos. Outra táctica é de impossibilitar a candidatura dentre os mais notáveis e, na medida do possível, mandar tantos outros às prisões preventivas. Quando possível, tente agrupar todas as vozes discordantes do país à sua volta. Não há nada melhor que nomeá-los para cargos dos conselheiros, mas sem funções práticas. Adicionalmente, o meu país dispõe de uma diversidade étnica e sabemos como explorar este aspecto. Cá por mim, prefiro identificar-me com a maioria. O meu último reduto é, no entanto, falsificar os votos. Mas, este é assunto complicado. Talvez possamos discuti-lo numa próxima viagem, antes das eleições.

Doutor Kulumba: Fico-lhe grato pelas lições e tenho a impressão de que até já ganhei um outro mandato!
Rei Malmatar: Boa sorte e volte sempre!